• Roger Maioli

As obras-primas da literatura universal: uma ótica brasileira

Updated: Sep 15, 2020


Todos conhecemos aquelas listas das obras-primas da literatura universal — os poemas, peças e romances que constituem leitura obrigatória para o amante de livros. Tais listas são sempre interessantes de ler, mas é difícil achar uma que não pareça insatisfatória por um motivo ou outro. As listas feitas em veículos de língua inglesa, por exemplo, tendem a incluir um número desproporcional de obras escritas em inglês, deixando de fora obras em outros idiomas que são todavia parte de seus cânones nacionais. Há muitos exemplos, mas vão aqui este e este.


Notando essa tendência dos cânones de língua inglesa, o professor de filosofia e ex-ministro da educação Renato Janine Ribeiro convidou seus seguidores no Facebook a formular suas próprias listas de leituras obrigatórias, ou de “livros (de ficção) que a pessoa deveria ler para ter uma boa percepção do mundo.” Centenas de pessoas participaram, com listas incluindo dez ou mais livros, especialmente mas não exclusivamente de ficção. A obra mais mencionada foi Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, um dos poucos romances da América Latina a figurar em listas de língua inglesa. Machado de Assis, que ainda tem uma presença marginal nos cânones de língua inglesa, marcou presença com várias obras bem votadas.


Resolvi compilar os dados das respostas para ver o que mais esses dados revelariam. Eles revelam, como se verá abaixo, um panorama bem diferente da literatura mundial. Os brasileiros, ou pelo menos essa amostra do nosso público leitor, mostram uma visão menos anglocêntrica do cânone universal, com espaço de destaque para a literatura brasileira e um perfil mais internacional do que os cânones anglófonos. Os gráficos e tabelas abaixo procuram revelar traços relevantes dessa diferente percepção da literatura mundial.

Antes de passar aos dados vão algumas observações sobre método:

- Compartilho estes dados porque são interessantes, mas é importante salientar que o que se segue é uma enquete informal e não um estudo estatístico. Outros levantamentos envolvendo outros leitores com certeza trariam resultados diferentes.

- Qualquer leitor que percorra os dados abaixo imediatamente notará a ausência de obras que ninguém negaria ser importantes. Tristram Shandy, O Tartufo, Gravity’s Rainbow e Invisible Man, para citar apenas algumas, receberam um total conjunto de zero votos. Acontece. Nada disso é negar que tais obras, como muitas e muitas outras, merecem leitura, nem que faltem brasileiros que as leiam.

- Aproximadamente 500 obras diferentes foram mencionadas. Quase três quartos delas foram mencionadas uma vez só. Em alguns casos trata-se de obras famosas (como Orgulho de Preconceito, de Jane Austen, ou A Sangue Frio, de Truman Capote) que por algum motivo receberam poucas menções. Em outros casos são obras menos conhecidas. Os dados abaixo priorizam obras que foram mencionadas por pelo menos duas pessoas, o que indica uma preferência compartilhada e não apenas pessoal. Houve 142 delas, escritas por 107 autores diferentes.


As 50 obras mais mencionadas (na verdade 58, devido a empates), foram as seguintes:


1. Gabriel García Márquez, Cem Anos de Solidão (39 menções)

2. João Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas (36)

3. Fiódor Dostoiévski, Crime e Castigo (34)

Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas (34)

5. Miguel de Cervantes, Dom Quixote (25)

6. Franz Kafka, O Processo (22)

7. Liev Tolstói, Guerra e Paz (17)

8. Machado de Assis, Dom Casmurro (16)

9. Franz Kafka, A Metamorfose (16)

10. Dante Alighieri, A Divina Comédia (15)

Victor Hugo, Os Miseráveis (15)

Fiódor Dostoiévski, Os Irmãos Karamazov (15)

13. Graciliano Ramos, Vidas Secas (14)

Homero, Odisséia (14)

15. George Orwell, 1984 (13)

16. Jorge Luis Borges, Ficções (12)

Thomas Mann, A Montanha Mágica (12)

William Shakespeare, Hamlet (12)

19. Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido (11)

20. Albert Camus, O Estrangeiro (10)

José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira (10)

22. Clarice Lispector, A Paixão segundo G.H. (9)

José Saramago, O Evangelho segundo Jesus Cristo (9)

24. Gustave Flaubert, Madame Bovary (8)

John Steinbeck, As Vinhas da Ira (8)

Stendhal, O Vermelho e o Negro (8)

Émile Zola, Germinal (8)

28. Honoré de Balzac, Ilusões Perdidas (7)

Homero, Ilíada (7)

James Joyce, Ulisses (7)

Oscar Wilde, O Retrato de Dorian Gray (7)

32. Jorge Amado, Capitães da Areia (6)

Johann Wolfgang von Goethe, Fausto (6)

Sófocles, Édipo Rei (6)

35. Anônimo, Gilgamesh (5)

Antonio Callado, Quarup (5)

Choderlos de Laclos, As Relações Perigosas (5)

Julio Cortázar, O Jogo da Amarelinha (5)

Umberto Eco, O Nome da Rosa (5)

Gabriel García Márquez, O Amor nos Tempos do Cólera (5)

Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo (5)

Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser (5)

Machado de Assis, O Alienista (5)

Herman Melville, Moby-Dick (5)

J.D. Salinger, O Apanhador no Campo de Centeio (5)

William Shakespeare, Macbeth (5)

Stendhal, A Cartuxa de Parma (5)

Liev Tolstói, A Morte de Ivan Ilitch (5)

Érico Veríssimo, O Tempo e o Vento (5)

50. Anônimo, As Mil e Uma Noites (4)

Jorge Luis Borges, O Aleph (4)

Italo Calvino, Cidades Invisíveis (4)

Gilberto Freyre, Casa Grande e Senzala (4)

Johann Wolfgang von Goethe, Os Sofrimentos do Jovem Werther (4)

Karl Marx e Friedrich Engels, O Manifesto Comunista (4)

Vladimir Nabokov, Lolita (4)

Jean-Paul Sartre, A Náusea (4)

Sófocles, Antígona (4)


As demais obras, que receberam menos de quatro menções, estão listadas no documento abaixo:

Demais obras
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A lista em imagens

Os gráficos abaixo consideram não apenas as 58 obras acima, mas todas as 142 que receberam duas ou mais menções. Como se verá, a percepção revelada pela enquete ainda prioriza obras de autoria masculina, e apesar do perfil mais internacional o número de países representados ainda é pequeno. Concentra-se nas Américas e na Europa. Um único autor indiano, Salman Rushdie, recebeu mais de duas menções (uma menção a Arundhati Roy, e uma ao Bhagavad Gita); o Japão teve menções graças a O Conto de Genji e dois romances de Haruki Murakami e Yukio Mishima; e os únicos autores africanos a constar nas respostas foram Mia Couto e Chinua Achebe, com uma menção cada.


Assim como a literatura brasileira parece periférica aos olhos dos leitores americanos e europeus, a maioria das literaturas nacionais padece de uma invisibilidade similar, inclusive aos nossos olhos. Quais são os grandes romances da Armênia? Eu nunca li nenhum, mas seguramente há vários e merecem ser lidos.



Autoria por sexo:


Número de obras por sexo:



Número de menções por país (incluindo as antigas Mesopotâmia, Grécia e Roma)



Número de obras por país


Número de autores por país




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